
Quando era miúdo fiz papagaios de papel na rua.
Duas canas juntas em forma de cruz, um fio a passar pelas quatro pontas da cruz, uma folha grande de jornal, água e farinha para fazer de cola e fazer as dobras no papel, dobras que passavam por cima do fio à volta das canas.
E lá iam eles pela nossa mão ganhar asas e levantar voo, umas vezes duravam uns minutos outras um dia, não fazia mal, no dia a seguir fazíamos outros e voltavamos a voar.
De vez enquando aparecia junto a nós um adulto com deficiência, nessa altura não sabia identificar qual, era uma deficiência, era um deficiente, o nosso deficiente. Pedia-nos para brincar com os papagaios de papel e nós acediamos, passado pouco tempo, invariavelmente, o papagaio ficava enrolado num cabo de telefone que havia na rua, não tinha a nossa destreza, mas não fazia mal.
Enquanto voava não era só o papagaio que tinha asas, o nosso adulto com deficiência também as tinha.
E o que ele voava... E nós com ele.