Em busca da humanidade
Em 1982 foi lançado o sucesso cult que descreve uma sociedade distópica na qual a humanidade convive com replicantes. 35 anos após o primeiro filme foi lançado o novo longa, cuja história também avança três décadas. Dirigido por Denis Villeneuve, diretor de Arrival (A Chegada), e produzido por Ridley Scott, o diretor do filme original, BR 2049 traz Harrison Ford como Rick Deckard, personagem já apresentado no primeiro filme, Ryan Gosling como o replicante ‘K’ e Robin Wright como a tenente Joshi.
Com uma fotografia sombria e nebulosa, revive-se uma sociedade ainda nostálgica por ídolos dos anos 1950, como Elvis Presley e Frank Sinatra. O novo longa-metragem revisita questionamentos éticos já apresentados no anterior, trazendo mais indagações sobre aquele modelo de experiência social. No filme de 1982 já surgiram questionamentos sobre os paradoxos entre os avanços tecnológicos e biológicos que possibilitariam a clonagem com ‘melhoramentos técnicos’ de humanos, bem como os seus reflexos sociais, econômicos e existenciais. Os replicantes são clones de humanos, contudo, desprovidos de alma, de humanidade. São humanoides que receberam as características físicas da força, sagacidade e, obviamente, do padrão de beleza ocidental.
No primeiro filme, apresentou-se a capacidade de um replicante ter a percepção de que é desprovido de alma e, portanto, um escravo destinado a cumprir uma determinada missão. Estes seres foram dotados de toda a estrutura biológica dos humanos, mas não fazem parte da humanidade. Além de desprovidos de alma, os replicantes foram desenvolvidos para cumprir funções específicas naquele futuro, como colonizar planetas inóspitos e realizar os trabalhos indesejáveis. Agora, no segundo filme, ao se depararem com o fato de que um de seus pares pode se reproduzir, assumem um novo propósito, um que não lhes foi dado pelo homem (ou foi?). Os efeitos políticos, que aqui se assemelham à revolução haitiana, reproduzem uma rebelião de replicantes, agora determinados a reivindicarem sua humanidade e seu espaço na sociedade.
A narrativa principal é desenvolvida por Ryan Gosling, o qual sutilmente cresce como um personagem que é defrontado com a possibilidade de ser único de sua espécie, de ser o primeiro filho de uma replicante com um humano. O telespectador descobre isso ao mesmo tempo que se depara com a informação de que ele também pode não ser tão especial, pois há uma suposta irmã gêmea que, dada como morta, compartilharia do mesmo código genético de 'K'. O filme, a partir dessa informação, transforma-se em uma rede de esperanças que envolvem o personagem e o telespectador.
Se no primeiro filme foi apresentado o surgimento de uma condição de deidade (no sentido de criador) aos proprietários da nova tecnologia, assim como um deus que dá vida a um corpo de barro, agora em BR 2049, reflete-se sobre o momento em que a criatura adquire a autonomia de criar por si só, ou seja, quando ela identifica sua humanidade. Se no primeiro filme a trama ocorre em torno da transformação do humano em um deus, agora, em BR 2049 vemos o replicante reivindicando sua humanidade.