Arquitetura Cinematográfica
Columbus (Ohio) é a cidade que emoldura a sensível amizade de dois estranhos. Jin é um tradutor que vem da Coreia do Sul a fim de visitar o pai que teve uma crise de saúde. Cassandra (Casey) trabalha em uma livraria e, inspirada pela arquitetura local, nutre o sonho de se tornar arquiteta. Enquanto Jin tem um distante relacionamento com o pai, um famoso arquiteto que está de passagem pela cidade, Casey vive com a mãe. Apesar de virem de realidades distantes, os dois encontram conforto a partir de seu relacionamento.
Paralelamente, o filme narra a história tanto dos dois personagens quanto das instalações arquitetônicas de Columbus, as quais carregam simbolismos e permitem fugas aos personagens. A arquitetura não só permeia a amizade dos dois, mas também simboliza os dramas pessoais de Casey, principalmente como uma válvula de escape para seus problemas pessoais. Mais ainda, os personagens encontram na arquitetura pontos de tensão (como a relação de Jin com seu pai), fuga e equilíbrio. Inclusive, a relação dos dois se desenvolve como uma das obras da cidade, uma igreja projetada por Eliel Saarinen, descrita por Casey como assimétrica, porém balanceada.
A narrativa, escrita e dirigida pelo sul-coreano Kogonada, questiona um conflito comum da nossa sociedade, referente ao (des)equilíbrio entre família e trabalho. Jin é o filho que se distanciou do pai e cujo sucesso pessoal se reflete principalmente em termos de sua vida profissional (ainda que esta também tenha sinais de crise). Casey é a filha que assume a figura materna no relacionamento com sua mãe e tem dificuldade para se distanciar dela, vendo-se então tentada a sacrificar a oportunidade de finalmente iniciar sua carreira.
O encontro dos personagens alimenta-se com o questionamento sobre ficar ou ir embora. O que nos motiva a escolher ficar onde estamos ou decidir ir embora? Nossos motivadores são razões coerentes com nossas aspirações ou são justificativas apoiadas em medos?
Nesse sentido, o filme poeticamente argumenta sobre o significado da arquitetura como cura. Em um determinado momento do filme, uma construção de Polshek é descrita por Jin como metafórica e literalmente uma ponte, um caminho de transição e de cura. E essa também é a trajetória dos dois personagens. O filme em si é essa ponte, este caminho pelo qual percorrem temporariamente os dois. O roteiro e a fotografia recontam o antes, projetam o depois e permitem ao telespectador a reflexão sobre a importância do percurso que escolhemos, sobre as decisões que tomamos no agora.
Em uma cena no início do filme, a mãe de Casey sugere que falta pimenta em sua refeição, possivelmente trazendo uma crítica mais ampla à vida da garota. Casey, contudo, defende que a comida estava insossa por tentar fazer algo menos óbvio, mais sútil. E essa fala dela descreve o ritmo do filme, abordando a vida cotidiana de dois indivíduos que enfrentam momentos de transição em suas vidas e utilizam de suas experiências pessoais para apoiarem-se (e alavancarem-se).
A aparente simplicidade do filme, principalmente no que se refere ao seu andamento, pode ser defendida por uma das falas de um dos colegas de trabalho de Casey, o qual, em uma conversa pergunta a ela: “Estamos perdendo interesse no cotidiano?”. E novamente, a própria história do filme defende sua estrutura e estilo narrativo. É uma obra sobre o cotidiano, sobre como o mesmo pode ser tão insosso para alguns mas, se observado com mais atenção, contém todo o dinamismo necessário para se tornar uma história de cinema.
Fontes: Imagem 1 | Imagem 2 | Imagem 3 | Imagem 4 | Imagem 5 | Imagem 6 |