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-PARTE 10-
14 de Fevereiro
Celebra-se o Dia de São Valentim em alguns países. Numa missão anterior, um astronauta chileno fez uma supresa à esposa, através de uma chamada inesperada em que a presenteou com um poema feito por ele. O vídeo foi partilhado no Hive, a rede social mais influente à data, e depressa correu mundo. Desde então, a tripulação que se encontra a bordo neste dia assinala a data fazendo uma videochamada para a Terra e oferecendo momentos alegres e tocantes. Para além da poesia, já houve canções, pequenos teatros e até simples discursos improvisados. Este ano estava prevista uma experiência através de óculos de realidade virtual. Os astronautas prepararam uma viagem virtual com mistura de alguns elementos reais presentes na Estação que permitiria partilhar algumas supresas com os participantes da Terra.
Esses seriam os planos para o dia mas em vez disso... têm agendada uma comunicação oficial por parte do comando da missão. No dia anterior não houve novidades e Richard solicitou esta reunião com carácter de urgência.
À hora marcada, a chamada começou e após os cumprimentos iniciais abordou-se o assunto incómodo.
Comando: "Vamos ao que nos trouxe aqui. Vamos manter a comunicação simples e distinguir factos de suposições. A transmissão, como em qualquer outro vírus deste tipo, é feita maioritariamente pelo ar. O uso de máscaras é essencial, preferencialmente FFP4. Era expectável que menor carga viral significasse maior probabilidade de o sistema imunitário responder. Não parece ser o caso. O desfecho é praticamente binário. Se infecta, mata. Parece que não há infecção pequena ou grande."
Idrissa: "E as pessoas supostamente imunes?"
Comando: "Essa é a parte em que ainda não há certezas, só suposições. Há pessoas que parecem imunes porque de certeza que estiveram expostas ao vírus mas não lhes aconteceu nada. É como se um incêndio impossível de resistir, lavrasse todo o território e no fim ficassem algumas árvores intocadas."
"Poderá ter a ver com diferenças nos receptores? Não há um padrão?" - perguntou Kenna
Comando: "Não há padrão absolutamente nenhum e isso é que perturba os peritos. A única ideia que se está a explorar é exactamente a hipótese de diferenças nos receptores. Por alguma razão quando expostos ao mesmo agente uns indivíduos têm mortes rápidas e outros não dão por nada. Nem sintomas fortes, nem fracos. Nada mesmo e quando testados não acusam qualquer infecção."
Richard: "Qual o comportamento do vírus nas superfícies e resistência a UV? Já se sabe?"
Comando: "Não houve ainda tempo suficiente para avaliar isso mas tudo indica que seja bastante resistente. Há um problema... é que aparentemente a água não o afecta. Não estou a dizer que a lavagem de mãos e objectos é mais difícil e menos eficiente. É mais do que isso. A água não o afecta e, como tal, pode servir como veículo de transmissão."
Daniel: "Assim as coisas mudam de figura. Se já não estava fácil, assim fica pior. Toda a gente vai querer água fervida ou desinfectada porque não há pastilhas de esterilização para tanta procura."
Comando: "Sim, esse é só um dos problemas logísticos com que nos estamos a deparar. Em relação à dispersão, contam-se pelos dedos das mãos os países que ainda não confirmaram casos. Já há casos em todos os vossos países. Se não houve ainda divulgação, será feita durante o dia de hoje."
Bogdan: "Qual é o plano de actuação? Se não se consegue ainda combater, o que fazem agora? Evitam contacto entre as pessoas para travar o contágio?"
Comando: "Sim, é essa a prioridade. Duas equipas de investigação de catástrofe instalaram-se hoje e selaram os edifícios. Outras devem estar em posição amanhã."
Richard: "Quais das infraestruturas foram activadas?"
Comando: "Estas duas são a da Sibéria e a da África do Sul. Chegaram durante a noite, instalaram o material e isolaram-se. Se não houver imprevistos, amanhã entram em funcionamento a do Grand Kenyon e o bunker novo da Noruega."
YY: "E as cúpulas na Mongólia?"
Comando: "Não está fora de hipótese mas não temos conhecimento que se dirija para lá alguma equipa."
Arwa: "Alguma recomendação que possamos fazer às nossas famílias?"
Comando: "Não temos informações privilegiadas que outros não tenham. Conseguimos saber mais cedo e de mais fontes mas não existem indicações de como lidar com isto. Depende de cada governo, mas no geral todos estão a adoptar confinamentos obrigatórios porque as pessoas infectadas simplesmente morrem de um dia para o outro. Falem com as vossas famílias e amigos e se alguns não estiverem preocupados, façam-nos ver que é mesmo grave."
Richard: "Ok, assim faremos. Obrigado pelo briefing. Não vos pedimos que o façam diariamente mas se surgir algo relevante por favor informem-nos."
Comando: "Assim faremos. Continuação de bom trabalho aí em cima."
imagem: pixabay.com