Parte de mim sempre tinha o desejo de provocar determinados temas quando estou na presença dele, por que sou curioso, gosto de entender, de aprender, mas também tenho minha visão crítica já se formando, onde nem tudo eu aceito, porém ouço com respeito e cuidado, por que sempre posso aprender mais. Enquanto enrolava um cigarro com um tabaco orgânico aqui da região vizinha decidi por puxar novamente aquele papo complicado a respeito de liberalismo econômico, conservadorismo e tudo aquilo que ele repudia e tenta argumentar contrário com muita indignação. Mas meu papel ali era apenas fazer perguntas, eu não tentava afirmar, ainda que as vezes minhas perguntas soem comprovações de que penso oposto a quem estou questionando.
-Minha única crítica ao capitalismo, é que não posso aceitar que enquanto eu esteja aqui tendo tudo que preciso enquanto tem gente morrendo de fome, não tendo nem onde dormir, isso não dá pra aceitar!
Dizia ele, e continuou:
-Seria necessário uma reforma para melhorar a situação de emprego para todos, acabar com esses sub empregos, essas leis que protegem empresas sangue suga como as empresas de fast food, etc.
E eu pergunto:
-Cara, entendo o que quer dizer com subempregos como os dos fast food. Mas será que, devido ao nível que estamos hoje, sabendo que estamos mal. Melhor do que 100 desempregados, seria termos 100 subempregados? Será que você pode responder por um pai de família que está passando necessidade e aceitaria na hora um emprego qualquer no lugar de um desemprego?
-Não! Isso é inaceitável, essa é a premissa da direita, fazer o homem aceitar qualquer coisa, subir em cima da sociedade! Isso só vai reforçar o comportamento das corporações imensas e gananciosas. No lugar dessa reforma nós temos que fazer o contrário! Precisamos que todos tenham MENOS horas trabalhadas e MAIORES salários!
E eu impactado com o exato retrato absurdista caricaturado por Ayn Rand em A Revolta de Atlas sendo expressado em minha frente numa opinião sincera e com paixão, pensei um pouco enquanto soltava a fumaça lentamente.
-Ok. Mas diminuir o tempo de trabalho e aumentar o dinheiro de cada funcionário. Sendo que SEM fazer isso já estamos no limite da economia. Como espera que surja esse montante necessário para calçar esse novo paradigma econômico?
E com uma sinceridade e um indisfarçável olhar de: "Como você não pode saber de algo tão óbvio?", ele responde:
-Mudando a consciência de todos os patrões ué!? É só as pessoas pararem de ser ambiciosas! Se todo empreendedor abdicar parte de seu lucro, isso dará certo!
E foi nesse trecho do diálogo que eu percebi por que a visão coletivista não funciona quando é apaixonada e cega. Por que parte de um pressuposto que a qualquer momento uma mudança consciencial coletiva planetária irá acontecer baseada em suas próprias premissas de "o que é o correto" e que isso (e só isso) fará nossa sociedade seguir em frente, crescendo. Acho que aqui tem gente muito mais estudada que eu em economia e política para compreender que nem preciso concluir esse raciocínio com qualquer refutação à solução proposta por meu amigo, não por que ela é utópica (mudar a mente do outro baseado nos preceitos pessoais), mas por que viver esperando uma solução inalcançável ao invés de trabalhar com o que se tem (e com as melhores ferramentas que tivermos) é um absurdo.
Definitivamente tem alguns assuntos que não valem a pena ser discutidos com paixão, principalmente entre amigos, por que não geram mudanças. Dialogar a respeito do tema é sadio, mas quando percebemos a fixação de ideais e utopias seja para um lado quanto para o outro, nada vai sair dali. Não vale a pena criar rancores baseado em ideais pessoais, eu acho...