Enquanto não sou capaz de organizar posts como fazia há pouco tempo atrás e minha mente está dispersa, permitirei-me devanear aqui sobre o que vier a tona.
Agora ouço alguma musica introspectiva e acolhedora no Spotify enquanto penso no inverno e em tudo que ele significou para mim em todos esses anos de vida, principalmente nessa fase pós adolescente e no começo da adultidade. O inverno para mim sempre representou uma temporada de recolhimento, de aprofundamento em si próprio. Por mais clichê que seja, penso na árvore hibernando, em suas folhas que caem, e seus frágeis galhos expostos recebem todo o frio, parece estar morta. Apenas parece. Está se resguardando, se reconstruindo por dentro, para poder dar melhores frutos na estação seguinte.
Esse ano parece que o cosmos quis sincronizar os acontecimentos de minha existência com o inverno, e tenho passado por imersões severas dentro de mim. Tem sido uma experiência de certa forma enriquecedora, acima de parecer no primeiro momento apenas devastadora. É engraçado que nada prepara-nos de fato para situações de auto enfrentamento tão intensas. Levei uma surra da existência ao desavisado, acreditar que tinha bagagem para enfrentar certas dificuldades emocionais e pessoais.
Gosto muito de pensar que aquela tão batida frase "Isso também passa" é fatalmente a certeza maior e única, que tanto consola. Vejam só, o tempo, atroz carrasco, é agora a única força sólida e certa. Por mais mutável que este mesmo seja, é fixo, está sempre ali, passando, correndo, gota a gota, areia que escorre entre os dedos e quando tudo que se precisa é alívio, então é pacificador saber que está passando, ainda que lento.
Como seria a mesma situação no verão? Não sei. Mas pensem em qualquer situação que vocês possam estar passando, imaginem-a no verão e imaginem-a no inverno. Isso é, se vocês estão vivendo um inverno, de fato, por que o Brasil é grande o suficiente para algumas pessoas não compreenderem o que é o frio de verdade.
O frio de verdade é aquele de lhe dói os ossos, que queima a pele. É você acordar sentindo o gelo na pele, descobrir que os 3 graus lá de fora as vezes parecem pior dentro de casa, ou que os cinco graus negativos podem fazer placas de gelo fascinantes nos lagos. Esse é o tipo de frio que vivenciamos aqui no Sul. E que sem dúvidas é incrível. Sou um amante do inverno, sou um defensor das baixas temperaturas, definitivamente não prefiro o calor, e quando falo calor falo daquelas desconfortáveis e absurdos 35 graus que deixam o raciocínio lento e a pele derretendo.
Minhas raízes europeias reconhecem no frio uma familiaridade com meus ancestrais, então não quero fazer deste inverno severo (emocionalmente) uma espécie de simbolo negativo, uma memória ruim de como gosto dessa estação. Eu ainda não acendi uma fogueira nessas noites geladas, se a temporada de chuva se acabar logo, poderei ao menos simular uma conexão de respeito com o frio, o céu e meus poucos amigos. Olhar esse vasto céu estrelado do sul e respirar profundamente o gelo do ar, para que preencha minha alma ferida e que renove minhas energias para olhar a primavera com os olhos de quem saiu mais forte de uma jornada hostil.