Dando procedimento à trama da bruxinha de Greendale, a segunda temporada de As Aventuras de Sabrina (Netflix) destoa completamente de sua predecessora, e não de maneira positiva. Focando na vida de Sabrina após a mesma ter assinado o livro das besta, a série inicia buscando explorar as consequências do afastamento de Sabrina de sua vida mortal e seu maior engajamento para com seu lado bruxo, isso é explicitado a medida que o relacionamento dela com seus amigos mortais se demonstra conflituoso construindo um dos prováveis piores arcos da temporada, coisa que na verdade é difícil de julgar. Seu antigo par amoroso, Harvey, além de continuar um personagem completamente indispensável e sem desenvolvimento, é envolvido em um relacionamento amoroso completamente inesperado e ao mesmo tempo clichê com Rosalinda, outra personagem que é trabalhada de maneira preguiçosa no explorar de seu arco em relação a cegueira.
E preguiça não é algo raro de se encontrar na história: a trama de Theo, antiga Susie, por exemplo, é uma das maiores demonstrações de desenvolvimento preguiçoso, a medida que o seu conflito em torno da identidade de gênero é construído de maneira extremamente jogada, sem dá à personagem um tempo de desenvolvimento razoável em torno da questão. Para deixar claro o nível da mediocridade: a transição de Susie para Theo simplesmente ocorre depois de um jogo de basquete, no qual Susie, brigando para ser aceita no time e tendo ajuda de Sabrina para isso, resolve que seu nome é Theo dali em diante. Não há alguma preocupação em aprofundar o desenvolvimento da nova identidade de Theo, a forma como a cena é trabalhada acaba por banalizar o conflito pessoal da personagem que se seguisse um caminho mais cuidadoso teria explorado o seu arco de maneira muito mais sofisticada e convincente, coisa que as cenas jogadas e aleatórias que o roteiro entrega para a personagem acaba não chegando nem perto de entregar.
Deixando de lado os conflitos mortais e voltando para os problemas do mundo bruxo, onde está a verdadeira expectativa em torno da história, a decepção é gritante, o motivo é simples e é o problema principal de toda a temporada: não há uma estória estabelecida, um arco principal, um problema maior. Do primeiro ao quinto episódio a série foca em subtramas de menor relevância que não levam a lugar a algum e simplesmente repetem o drama já batido do dilema de Sabrina em torno de seu conflito moral, vide o episódio em que Sabrina é tentada por Satã a roubar um chiclete. A preocupação da narrativa fica agarrada a uma tentativa de estabelecer os planos mirabolantes e obscuros de Satanás com relação a personagem principal e se perde ao não dá um arco de motivação esclarecido para a própria personagem.
As coisas começam a mudar após o quinto episódio em que o Sumo Sacerdote Faustus Blackwood passa a ser estabelecido de maneira definitiva como um vilão principal e conexões a respeito de suas ações controversas começam a ser exploradas. Como vilão, Faustus é um dos pontos positivos da temporada: transmite um senso de ameaça e uma motivação clara, isso sem contar a excelente atuação de Richard Coyle que consegue desde a primeira temporada trabalhar bem o caricatismo exagerado de seu personagem e ainda promover convencimento e elementos orgânicos à sua performance. Outro personagem bem trabalhado é o novo par romântico de Sabrina. Diferente de uma série de outros personagens que são desconstruídos ou mal trabalhados nessa temporada, Nicholas tem um desenvolvimento coerente e em sincronia com o que foi trabalhado no personagem desde de sua introdução. Sua relação com Sabrina, seus anseios idealistas e ao mesmo tempo seu comportamento prepotente são todos elementos relevantes na trama.
Dando espaços para mais pontos positivos não pode-se deixar de citar as personagens de Miranda Otto e Lucy Davis, as tias de Sabrina, que desde a temporada inicial dão um show de interpretação e carisma. As duas personagens se demonstram extremamente relevantes para a trama e passam por desenvolvimentos pertinentes que contribuem à história. Outra personagem que se destaca é a líder das Irmãs Estranhas, Prudence, que passa a ter um arco próprio melhor estabelecido, possuindo relação direta com o desenvolvimento do antagonismo de Faustus. Porém, o acerto não dura muito tempo, haja visto que a figura do vilão estabelecido é deixada de lado em busca de dar espaços para o papel de Satã na figura do principal problema da temporada, o que poderia presentear ao expectador uma experiência interessante, se não fosse feito de maneira extremamente precoce e sem nenhum planejamento.
Desde a primeira temporada a confrontação de Sabrina em relação à figura do senhor das trevas é um elemento trabalhado e, inclusive, muito bem construído à medida que explora a discussão moral presente na série. Entretanto, a sensação que se passava era de que essa seria a jornada geral e definitiva pela qual a história se guiaria. Porém, numa mudança de planos repentina você se depara com o vilão principal sendo confrontado e com um arco completamente mirabolante jogado na cara do espectador em dois episódios. Simplesmente não funciona. Já não bastasse a trama incoerente, o espectador é obrigado a engolir uma série de diálogos e atuações extremamente superficiais que estragam ainda mais a experiência. A segunda temporada de Chiling Adventures of Sabrina peca do início ao fim, não faz jus a sua predecessora e derruba as expectativas para o que pode vir adiante. Com um roteiro perdido, atuações frágeis e uma trama forçada, a série transmite uma experiência que varia do tédio à vergonha alheia. O que resta agora é torcer para uma nova temporada que compense os problemas do que foi entregue dessa vez, pois mesmo diante seus tropeços, a versão da Netflix para a bruxinha de Greendale possui seu potencial e, quando quer, sabe divertir.