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1 - Evidência de um limite para a vida humana
Olá a todos
Hoje trago um novo artigo: A Importância da Estupidez na Investigação Científica.
Parece estranho, não é? Nunca imaginamos os investigadores como pessoas estúpidas, nós os imaginamos como pessoas até bastante inteligentes. Talvez, de acordo com o autor do artigo, os investigadores devem aprender a ser estúpidos de forma produtiva, colocando-se na posição incómoda de serem ignorantes. Essa posição provoca uma grande diferença nos resultados finais.
Este artigo começa com o autor encontrando uma amiga. Ambos eram estudantes de doutoramento. À medida que a conversa progride, o autor fica em choque ao saber que a amiga deixou a faculdade porque o trabalho a fazia sentir estúpida e não queria sentir-se estúpida todos os dias. O autor sempre pensou nela como uma das pessoas mais brilhantes que conhecia e não conseguiu perceber as razões da sua decisão.
O autor continuou a pensar no assunto e, no dia seguinte, teve uma epifania:
A ciência também me faz sentir estúpido. Eu simplesmente me acostumei a isso. Tão acostumado aliás, que busco ativamente novas oportunidades para me sentir estúpido.
O autor sugere que é suposto ser desta maneira.
Para quase todos nós, uma das razões pelas quais gostávamos de ciência na escola e na faculdade é porque fomos bons a estudá-la e sempre tivemos um fascínio por entender o mundo físico, além de uma necessidade emocional de descobrir coisas novas.
Mas na escola e na faculdade, ciência significa fazer disciplinas e ser bom nas disciplinas significa obter as respostas certas nos testes. Se acertamos as respostas, somos bons alunos e sentimo-nos inteligentes.
Num doutoramento, em que é necessário fazer um projeto de investigação, a realidade é completamente diferente. Para o autor, foi uma tarefa assustadora:
- Quais as perguntas que levam a descobertas significativas?
- Como criar experiências inteiramente convincentes?
- Como prever dificuldades e ter maneiras de contorná-las?
A pesquisa do autor era bastante interdisciplinar e ele atazanava o departamento da sua faculdade sempre que tinha problemas, pois eram especialistas nas diversas disciplinas que ele precisava.
Um dia ele dirigiu-se a Henry Taube, vencedor do Prémio Nobel, e Taube disse-lhe que não sabia como resolver o problema.
Bem, se Taube não tinha a resposta, ninguém tinha.
E essa é a beleza do pensamento: ninguém tinha. Por isso é que era um problema de investigação. E sendo o seu problema de investigação, era ele que o tinha que resolver:
Essa perceção, em vez de ser desencorajadora, foi libertadora. Se a nossa ignorância é infinita, o único possível curso de ação é avançar o melhor que conseguirmos.
Basicamente, os alunos não estão preparados para entender o quão difícil é fazer investigação, porque investigação é a imersão no desconhecido:
Nós simplesmente não sabemos o que estamos a fazer. Não podemos ter certeza se estamos a fazer a pergunta ou a experiência correta até obter o resultado final.
O autor sugere ainda que é importante ensinar os alunos a serem produtivamente estúpidos. Isso significa que, se não nos sentimos estúpidos, não estamos realmente a tentar:
A ciência envolve confrontar nossa "estupidez absoluta".
Sem dúvida, isso pode ser difícil para estudantes que estão habituados a obter sempre as respostas certas.
A parte difícil é facilitar a transição entre aprender o que outras pessoas já descobriram e fazer nossas próprias descobertas.
Quanto mais confortáveis nos tornamos a ser estúpidos, mais profundamente avançaremos no desconhecido, aumentando as probabilidades de fazer grandes descobertas:
Uma das maravilhas sobre a ciência é que nos permite avançar desajeitadamente, obtendo resultados errados algumas vezes, mas mesmo assim fazer sentir-nos perfeitamente bem, desde que aprendemos algo novo.
Aqui está o vídeo (legendado em Português):
Bibliografia:
Martin A. Schwartz. The importance of stupidity in scientific research, Journal of Cell Science, 2008, 1771-1771, DOI: 10.1242/jcs.033340
Até à próxima,
Legman