Numa dessas discussões polêmicas sobre religião e política fui questionado se o fato de eu ser anarquista não se confrontaria com o fato de eu também ser cristão católico. Esse é um questionamento bastante pertinente pois a visão que a sociedade em geral tem de anarquistas é que são pessoas sem retidão moral, degenerados, perturbadores, que não possuem valores, formação espiritual ou religiosa. Mas, a realidade não condiz com a ficção, ao menos com relação a minha visão de anarquismo.
Há na minha visão de anarquismo muito de cristianismo. E para chegar a essa conclusão de que anarquismo pode sim andar junto com o cristianismo eu recorri a história do maior símbolo e razão de ser do cristianismo, Jesus Cristo. Um homem que desafiou as estruturas de poder, escancarou de forma incisiva e direta as falhas dos sistemas de poder, lutou durante toda a sua vida contra a opressão estatal e religiosa sobre as pessoas mais simples e que não possuem voz na sociedade.
Diversos são os textos em blogs, livros e demais escritos que questionam, examinam e refletem sobre esse perfil "anarquista" de Cristo. Muitos se utilizam das passagens dos evangelhos bíblicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), dos discursos de Cristo, a forma que ele desenrolava o seu discurso "político" e através dessas passagens bíblicas estudiosos conseguem visualizar em Cristo um caráter revolucionário em seus posicionamentos.
Dando uma vista nesses dias nos evangelhos e em alguns livros que tratam da Cristologia, que é o estudo profundo sobre a pessoa e a divindade de Cristo além do que nos relatam os evangelhos, me surpreendi com o que li.
Nos evangelhos é comum encontrarmos passagens onde Cristo chama os doutores da lei e os fariseus que eram as autoridades religiosas e políticas naquela época publicamente e na "cara deles" de "raça de víboras", "sepulcros caiados", "cegos".
"Guias cegos! Vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo." (Mateus 23:24)
Em um livro que tenho aqui em casa e que trata sobre o estudo da Cristologia, li um trecho interessante que diz:
"Como quer que se retrate Jesus, dever-se-ia levar em conta que ele foi executado, publicamente, como um criminoso. Jesus era uma figura pública que causava incômodo à autoridade." (O futuro da Cristologia - Roger Haight)
Diante de tais evidências, relatos e a forma como o próprio Jesus pregava impossível, ao menos para mim, não ver Jesus Cristo como o maior anarquista que existiu.